quarta-feira, 25 de abril de 2007


Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.

Cobre meu corpo frio com um desses lençóis

Que alagámos de beijos quando eram outras horas

Nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse De nós;

e leva-o depois para junto do mar, onde possa

Ser apenas mais um poema – como esses que eu escrevia

Assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu

Tinha medo de me deitar só com a tua sombra.

Deixa

Que nos meus braços pousem então as aves

(que, como eu,Trazem entre as penas a saudade de um verão carregadoDe paixões).

E planta à minha volta uma fiada de rosas Brancas que chamem pelas abelhas,

e um cordão de árvores

Que perfurem a noite – porque a morte deve ser clara

Como sal na bainha das ondas,

e a cegueira sempre Me assustou

(e eu já ceguei de amor, mas não contes A ninguém que foi por ti).

Quando eu morrer, deixa-me

A ver o mar alto de um rochedo e não chores,

nemToques com os teus lábios a minha boca fria.

E promete-me Que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos

Como pequenos foram sempre os meus ódios;

e que depois Os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olharPara trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando

Na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas

Que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,

Ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor

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